ENSAIO TÉCNICO-PEDAGÓGICO | ALTAS HABILIDADES OU SUPERDOTAÇÃO: Inteligência x comportamento superdotado: o(a) consumidor(a) e o(a) produtor(a) criativo(a)-produtivo(a) de conhecimento

A diferença fundamental entre alta habilidade acadêmica e a produtividade criativoprodutiva na perspectiva do neurodesenvolvimento

1. Introdução: o(a) colecionador(a) e o(a) criador(a)

Vocês já repararam que algumas pessoas passam a vida inteira devorando livros, acumulando diplomas e sabendo tudo sobre determinado assunto, enquanto outras parecem ter uma urgência quase incontrolável de reescrever as histórias, inventar novos caminhos e deixar a sua própria marca no
mundo?

Muitas vezes, nós olhamos para quem sabe tudo e dizemos: “Nossa, que genial essa pessoa!”. Contudo, a ciência da inteligência nos faz uma provocação um pouco mais profunda do que isso. Existe uma linha divisor de águas entre ter uma inteligência analítica elevada e demonstrar um comportamento superdotado. É a diferença entre ser um(a) brilhante colecionador(a) de saberes e ser um(a) criador(a) de conhecimento. Hoje, vamos compreender a diferença entre o(a) Consumidor(a) de Cultura, caracterizado(a) pela alta inteligência acadêmica, e o(a) Produtor(a)-Criativo(a), que manifesta o comportamento superdotado.

2. A metáfora da biblioteca: a alta inteligência acadêmica e o(a) consumidor(a) de cultura

Para entendermos esse conceito de forma bem simples e didática, imagine uma grande biblioteca. A pessoa com elevada inteligência puramente analítica ou cognitiva atua como o(a) Leitor(a) Ilustre dessa biblioteca, contando com uma capacidade impressionante de absorção e organização da informação.

Sob a perspectiva teórica descrita por Joseph Renzulli (2014, 2018), a alta inteligência acadêmica manifesta-se essencialmente pelo consumo refinado e pela reprodução do saber acumulado:

  • Ela lê os clássicos com uma velocidade incrível;
  • Memoriza datas, fatos, fórmulas e teorias complexas com facilidade;
  • Domina abstrações formais em tempo recorde;
  • Organiza as prateleiras do conhecimento com rigor metodológico; e
  • Consegue ministrar palestras e aulas excelentes, sintetizando com clareza o que outros(as) autores(as) escreveram.

Essa pessoa é uma exímia consumidora de cultura, demonstrando o que a literatura qualifica como a dimensão acadêmica ou escolar da habilidade intelectual (Renzulli, 2018). Se você precisa de alguém para sintetizar o conhecimento existente, aplicar regras estabelecidas com perfeição ou ensinar um método testado, a pessoa com alta inteligência acadêmica é imbatível. A mente dela domina o terreno do saber acumulado e faz esse conhecimento circular com maestria.

3. A mente do(a) arquiteto(a): o comportamento superdotado criativoprodutivo

Entretanto, quando analisamos o funcionamento associado às altas habilidades ou superdotação enquanto uma condição do neurodesenvolvimento, nos deparamos com uma dinâmica cognitiva e comportamental completamente diferente. Como destacam Renzulli e Reis (2020), a pessoa que demonstra um comportamento superdotado no domínio criativo-produtivo não quer apenas ler os livros da biblioteca. Ela olha para as paredes, pega o lápis e se comporta como um(a) Arquiteto(a).

Para o(a) indivíduo(a) que vivencia a produtividade criativo-produtiva, consumir informação nunca é o ponto de chegada, mas apenas o ponto de partida. Ele(a) lê a teoria existente e pensa: “Certo, mas e se o(a) autor(a) estivesse errado(a)? E se a gente juntasse esse conceito com as tecnologias do século
vinte e um? E se eu construísse uma sala nova nesse prédio?

A triangulação do comportamento superdotado (Renzulli, 2018)

Renzulli enfatiza que a superdotação não é uma condição estática ou um traço fixo, mas sim um comportamento que se manifesta em determinados contextos. Esse comportamento surge do encontro de três fatores: habilidade acima da média, alto compromisso com a tarefa (perseverança e motivação) e elevados níveis de criatividade (originalidade e pensamento divergente).

A pessoa com altas habilidades ou superdotação sente um impulso autoral visceral, um funcionamento cognitivo alinhado à Teoria Triárquica de Robert Sternberg (2020), na qual o pensamento analítico serve à criação e à aplicação prática. O(a) indivíduo(a) sente uma necessidade quase física de modificar
o campo em que está inserido(a):

  • Seja inventando uma nova fórmula biodegradável na escola;
  • Criando uma metáfora única;
  • Questionando um dogma da empresa; ou
  • Pintando uma tela de um jeito que ninguém nunca pintou.

Conforme aponta Alencar (2001, 2007) em suas obras fundamentais sobre barreiras e incentivos ao potencial criativo, a capacidade de pensar diferentemente e questionar o estabelecido é a força-motriz das grandes inovações humanas. A pessoa que manifesta comportamento superdotado não se satisfaz em apenas passar pela vida acumulando o saber dos(as) outros(as), pois precisa deixar a sua assinatura autoral no mundo.

4. Os desafios educacionais e a incompreensão do sistema

E é aqui que mora mais um dos desafios emocionais dessa mente criativa. Na escola tradicional e muitas vezes no mercado de trabalho, o sistema é feito para premiar o(a) Leitor(a) Ilustre, aquele(a) que memoriza a apostila, cumpre as instruções ao pé da letra e devolve exatamente o que foi pedido na prova (Virgolim, 2019; Fleith, 2020).

Intensidade e desenvolvimento assíncrono no neurodesenvolvimento

A necessidade premente de criar relaciona-se diretamente com o desenvolvimento assíncrono e com as sobreexcitabilidades teorizadas por Kazimierz Dabrowski (Mendaglio, 2021). Sendo uma condição do neurodesenvolvimento, as altas habilidades ou superdotação envolvem a vivência de ideias com intensidade emocional e intelectual ímpares, tornando a mera repetição uma fonte de sufocamento psicológico.

Quando a pessoa com comportamento superdotado tenta ser o(a) Arquiteto(a), alterando o projeto da aula, questionando a forma como o relatório é feito ou propondo caminhos fora da caixa, o sistema muitas vezes se incomoda. Como discutem Virgolim e Fleith (2020) sobre os entraves institucionais à expressão do talento, em vez de tido seu potencial acolhido, esses(as) indivíduos(as) acabam sendo rotulados(as) como desobedientes, inventores(as) de moda ou inconvenientes.

A dor de ter um universo de produções autorais na cabeça e ser forçado(a) a apenas repetir o que o livro diz sufoca o potencial dessas mentes. Se não dermos espaço para que os(as) nossos(as) produtores(as) criem, nós matamos a inovação ainda na infância.

5. Conclusão: a coragem de construir o novo

Se você tem ao seu lado uma criança, um(a) jovem ou se você é esse(a) adulto(a) que nunca se contentou em apenas seguir a receita do bolo, que sempre sentiu essa coceira no peito para inventar o seu próprio ingrediente, escute bem:

A humanidade não deu saltos gigantescos porque repetimos com perfeição o que já sabíamos. Nós avançamos porque alguém, em algum momento, olhou para a biblioteca da vida e disse: “Eu vou escrever uma página nova”.

Não tenha medo da sua necessidade de criar. Não se molde para caber na prateleira de ninguém. No mundo precisamos dos(as) colecionadores(as), mas também da sua coragem de construir o novo

Referências bibliográficas (Normas ABNT)

ALENCAR, E. M. L. S. Criatividade e superdotação: barreiras e apoios ao seu desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2001.

ALENCAR, E. M. L. S. Desenvolvimento da criatividade: exigência do século XXI. Revista de Educação Especial, Santa Maria, v. 20, n. 1, p. 61-70, 2007.

FLEITH, D. S. O papel da família e da escola no desenvolvimento de altas habilidades/superdotação. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 33, p. 1-18, 2020.

MENDAGLIO, S. Dabrowski’s theory of positive disintegration: A theory for the 21st century. Gifted and Talented International, v. 36, n. 1, p. 12-24, 2021.

RENZULLI, J. S. Modelo de enriquecimento para toda a escola: um plano abrangente para o desenvolvimento de talentos e superdotação. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 27, n. 50, p. 539-562, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.5902/1984686X14676. Acesso em: 29 jul. 2026

RENZULLI, J. S. The Three-Ring Conception of Giftedness: A developmental model for promoting creative productivity. In: STERNBERG, R. J.; AMBROSE, D. (org.). Conceptions of Giftedness. 3. ed. New York: Cambridge University Press, 2018. p. 348-370.

RENZULLI, J. S.; REIS, S. M. O Modelo de Enriquecimento para a Escola Toda: um plano abrangente para o desenvolvimento de talentos. Tradução de Suzana Graciela Pérez. Natal: Observatório Nacional de Altas Habilidades, 2020.

STERNBERG, R. J. The Cambridge Handbook of Intelligence. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.

VIRGOLIM, A. M. R. A inteligência em transformação: o modelo dos três anéis de Renzulli e a prática pedagógica. Revista Educação e Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 16, n. 42, p. 88-112, 2019.